quarta-feira, 19 de março de 2014

Balcma - Além da Imagem

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Fluminense Fm - A Maldita 15 anos In Memoriam


Por Alexandre Figueiredo
Niterói - RJ

Nos anos 80, o rádio do Rio de Janeiro tinha muitas AMs e poucas FMs. Destas, a maioria era dedicada ao paradão estrangeiro, com base na revista Billboard. Dominavam as músicas comerciais e grupos de origem duvidosa (conhecidos como "armações "). De música nacional, só medalhões da MPB dos anos 70 e artistas popularescos (ou "bregas"). A música alternativa carecia de uma emissora que lhe servisse de divulgação ampla e irrestrita.
Nos anos 70, duas emissoras tinham arriscado o rock. A Federal AM, rádio niteroiense de baixa potência surgida no fim dos anos 60, e a Eldorado FM, vulgo Eldo Pop, surgida em 1972 e comandada pelo lendário DJ Big Boy (1945-1977), conhecedor de música negra dos EUA e rock. A Federal pertencia ao grupo Bloch e a Eldo (que de pop só tinha o nome), ao Sistema Globo de Rádio. Ambas representavam a cultura alternativa numa época em que a repressão era ameaça súbita e freqüente em nossas vidas. A Federal acabou em 1974, quando mudando as instalações para a cidade do Rio de Janeiro, virou uma AM popular, a Manchete AM. A Eldo Pop acabou em 1978, um ano após a morte de seu criador, passando a ser, até hoje, a rádio 98 FM, de perfil popularesco.
No início dos anos 80, o Grupo Fluminense de Comunicação, responsável pelo jornal O Fluminense, de Niterói, estava testando uma emissora FM. O grupo, propriedade do jornalista Alberto Torres, já tinha uma emissora AM, a Fluminense AM, e o jornal O Fluminense era o maior veículo de imprensa escrita do Estado do Rio de Janeiro até a fusão com o Estado da Guanabara, quando jornais oriundos do antigo Distrito Federal, como O globo e o Jornal do Brasil passaram a ter maior expressão no Estado do RJ.
Por pouco a então nova FM, a Fluminense FM, não seria dedicada à música romântica. O superintendente do Grupo Fluminense, Ephrem Amora, chegou a criar um lema meloso para a emissora. Todavia, o jornalista Luiz Antônio Mello, que estava bolando um programa de rock, o "Rock Alive", mudou o rumo da rádio, ainda experimental, em 1981, alternando The Who e Eric Clapton com Amado Batista, eliminando aos poucos a programação romântico-brega da rádio.
Em primeiro de março de 1982, nascia a Fluminense FM, a MALDITA, inteiramente voltada para o rock. Vale lembrar que sua finalidade foi ser totalmente diferente das FMs de hit-parade , não apenas pelo fato de tocar bandas de rock, mas também ter locução, linguagem, programação, filosofia e mentalidade que nada tinham a ver com as chamadas "rádios jovens". Além disso, também tocava blues e a MPB tinha alguma relação com o rock.
A rádio, no início de sua existência, tocava poucas bandas novas. Ela precisava se estabilizar e havia um marasmo no rock nacional da época. Ainda assim, a Flu FM começou a tocar a coletânea "Rock Voador", parceria entre a WEA e o Circo Voador que lançou nomes como Celso Blues Boy, Vid & Sangue Azul e Kid Abelha (este, por ironia, arroz de festa das rádios dance do país e rejeitado pelo público de rock de hoje em dia), além de demos de Lobão, Paralamas do Sucesso e Blitz (outro conjunto mais para pop). Na época, esses nomes eram a vanguarda do rock nacional que, depois de uma crise de identidade no final dos anos 70, tentava absorver parte da new wave norte-americana (Devo, B 52’s, Gary Numan), mas num sotaque que, segundo as más línguas, lembrava a Jovem Guarda. O Kid Abelha, por exemplo, soava Celly Campello reciclada. Os Paralamas do Sucesso eram os que melhor representavam o rock na época, entre os que estavam em ascensão. A sonoridade do grupo era voltada para o ska, na linha do ótimo grupo The Police. Atualmente, os Paralamas do Sucesso estão mais próximos da MPB do que para o rock.
A Fluminense FM lançou um produto novo chamado fita-demo. As fitas-demo serviam para dar a amostra do talento de cada banda, só que, graças à Fluminense, acabaram virando obras primas. Destacam-se as fitas-demo dos grupos Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial (bem superior à fase em que a banda foi pasteurizada pela indústria), Plebe Rude, Lado B (grupo paranaense depois radicado em Niterói que lançou um mini-LP pela EMI em 1985), Escola de Escândalo, Saara Saara, Urge, Picassos Falsos, Finis Africae, entres outros. Quem tiver alguma dessas fitas ou biografia sobre essas bandas, favor escrever para egoms@hotmail.com.
As fitas-demo tinham qualidade técnica sofrível, mas em contrapartida seus sons eram mais crus, espontâneos e bem melhores do que as versões em LP de algumas bandas. Por exemplo, "Idade Média" dos Picassos Falsos e os primórdios do Capital Inicial (quando Dinho Ouro Preto, da família do Visconde de Ouro Preto, não era um galã) eram bem melhores em gravações demo. Em LPs de grandes gravadoras, bem mixados, tais músicas, mesmo não ruins, soavam inferiores às originais.
A programação da Flu FM era brilhante. Já em 1984 a rádio acelerava nas novidades, tocando as novas tendências da época, como Smiths, New Order, Cure, U2 e grupos veteranos porém pouco conhecidos como Joy Division e Dead Kennedys. Na sua melhor fase, entre 1984 e 1989, a rádio freqüentemente jogava direto na programação normal, aliviando a carga dos programas específicos que poderiam ser mais criativos e ousados. Uma vez, uma cópia do single "The Game" (1987) do Echo & The Bunnymen, chegou aos estúdios da rádio e foi tocado diretamente na programação normal.
Entre os locutores da   "Maldita ", se destacaram Selma Boiron, Selma Vieira, Liliane Yusim, Mirena Ciribelli (hoje apresentadora de programas esportivos da Rede Globo), Monika Venerabile, José Roberto Mahr, Maurício Valadares, entre outros.
Entre os programas da Fluminense FM, vale lembrar do "Rock Alive", apresentado pelo DJ, jornalista e fotógrafo Maurício Valladares e pela jornalista Liliane Yusim, hoje editora dos programas RJ TV e Jornal Nacional da Rede Globo. Apesar do nome, o "Rock Alive" era o mais eclético, chegando a tocar até Clementina de Jesus (sério, sem sacanagem!!). Outros programas eram memoráveis: o "Módulo Especial" (meia hora com músicas de um artista), "Guitarras" (metal, punk e derivados), "Espaço Aberto" (Rock Nacional e MPB), "Mack Twist" (skate rock, punk e new wave), "Rush" (soft rock e MPB), "Tendências" (que chegou a ter quatro horas de duração!), entre outros.
A programação da Flu Fm era 24 horas por dia para gravar, sem locuções nem vinhetas atropelando as músicas. Cada módulo começava com uma música nacional e depois duas estrangeiras. As músicas não se repetiam de uma hora para outra nem mais de duas vezes por semana, e até o repertório de um dia diferia de outro quase que por completo. Os locutores tinham um perfil sóbrio e não deveriam usar gírias nem sisudez, equilibrando a dicção e o texto falado para uma linguagem que possa ser aceita tanto por adolescentes como por adultos.
Desde 1985, porém, muitas rádios comerciais pegaram carona na revolução da Fluminense FM, diluindo o formato para os mesmos padrões do hit-parade rejeitados pela "Maldita". Infelizmente os que apoiaram a Fluminense acabaram se iludindo com suas clones comerciais.
É como se, entre os atores, preferir Ricardo Macchi a um Paulo Gracindo. A Fluminense FM foi aos poucos preterida pelas FMs que pasteurizavam seu formato. Em março de 1990, Luiz Antônio Mello e José Roberto Mahr (responsável pelo "Novas Tendências" ou NT) saíram da rádio (Mahr ainda voltaria para Flu FM em 1991), e a Fluminense FM passou a tocar pop, por um ano num ensaio para o que viria depois em 1994. Os protestos, porém, fizeram com que a Fluminense voltasse para o rock em 1991, mas sem a criatividade dos tempos anteriores. A programação roqueira dificilmente seria independente das paradas de sucesso, como era antes no auge da Fluminense.
Nesta fase, a Fluminense era uma decadência. É escalada uma equipe de locutores amadorescos, com exceção de Monika Venerabile, Ricardo Chantily, Tom Leão, Andre Mueller (Plebe Rude), Dodô, Rodrigo Lariú e José Roberto Mahr. Mesmo assim, o espaço para bandas alternativas, ainda que limitado, existia. A Fluminense, nesta fase, estava entre reviver seus tempos áureos ou concorrer com as clones comerciais.
Porém, o que mais pesou foi uma campanha negativa contra a rádio, que já estava marginalizada pela mídia. Corria entre alguns descontentes o bordão "A Fluminense morreu", já em 1991, e os menores erros cometidos eram duramente condenados. Todos botavam a culpa na rádio quando o problema real era a existência de alguns radialistas medíocres. Resultado: a única FM não-comercial do Rio de Janeiro encerrou suas atividades em 30 de setembro de 1994, quando entrou no ar uma rádio de credibilidade duvidosa (até para a dance music!), Jovem Pan 2. Pelo menos, resta um consolo: apesar do poder publicitário da Jovem Pan Sat, um papo entre amigos sobre a "Maldita" tem mais conteúdo inteligente do que as revistas ridículas que a Jovem Pan empurra para o mercado.
Fatos Marcantes
- O programa  "Rock Alive ", que teve como principal responsável o fotógrafo, jornalista, radialista e DJ Maurício Valladares, apesar de tocar rock e de ter o têrmo em seu nome, tinha um conteúdo mais eclético, englobando as matizes da música negra, como o reggae de raiz, o blues, o soul e até Clementina de Jesus (eu mesmo flagrei na rádio, na época).
- O programa  "Novas Tendências", surgido na extinta Estácio FM (107, 5 MHz), teve seu auge na Fluminense FM, de 1986 a 1990. Chegou a ter quatro horas de duração, mas a compra dos direitos de retransmissão da 89 FM de São Paulo e Recife reduziu o programa a duas horas de duração. Quando o programa se mudou, no Rio de Janeiro, para a Rádio Cidade, ganhou uma parca meia hora de rock e outra meia de tecno, teoricamente. Na prática, eram apenas seis bandas de rock e três de tecno em média por semana. A cidade, então atrelada ao dance, chegou a jogar o dance-farofa 2-unlimied (um dos símbolos do perfil dance da Jovem Pan 2) nos módulos tecno do NT. Nos tempos em que o programa reinava na Flu FM, seu repertório musical servia de base para a programação normal.
- Apesar de ser considerada a  "primeira rádio de rock " do Brasil, a Flu FM foi antecedida por duas rádios nos anos 70, a Federal AM e a Eldorado FM (citadas no livro  "Onda Maldita "). Na verdade, a Fluminense FM foi a primeira rádio de rock de porte médio (porque seus constantes problemas financeiros, já que não era uma FM comercial, dificultaram a real ascenção da rádio na grande mídia) do Brasil em tempos de democratização (a Eldo Pop surgil em 1972, época de censura e repressão; por isso é que não tinha muita locução, condição imposta pelo Sistema Globo de Rádio para manter o projeto do saudoso DJ Big Boy).
- O programa  "Rock Alive", em seus primórdios, teve a colaboração da jornalista Liliane Yusim. Atualmente, ela faz parte das equipes editoriais do  "RJ TV" e do "Jornal Nacional" da Rede Globo. Liliane foi uma das primeiras locutoras da Fluminense FM.
- Em 1987, durante a programação normal, à tarde, houve uma interrupção para tocar o compacto  "The Game", do hoje recém-reativado Echo & The Bunnymen. Era o compacto da estreia do último LP do grupo antes da parada então definitiva, e o último gravado com o baterista Pete de Freitas, morto em 14/6/89. A cópia do compacto havia sido adquirida pela rádio naquele mesmo dia em que o compacto foi tocado, no segundo semestre de 97. A rádio decidiu não esperar incluí-lo em algum programa específico e jogou diretamente no horário normal.
- No dia primeiro de abril, a Flu FM tocava o início de uma música da Madonna, naquele ano de 1987. Era gozação e a música,  "Into the Groove", foi interrompida antes da metade. Em 1995, porém, a Cidade e a Transamérica tocavam Madonna tranquilamente, mesmo se autodeterminando  "rádios rock". Nos anos 80, a Flu FM passou a tocar o cover de "Into the Groove" com o atualmente conhecido Sonic Youth.
- Por outro lado, outro artista pop, Michael Jackson, radicalmente rejeitado pela Flu FM por não ter a menor identidade com o segmento rock, também foi lembrado pela Transamérica em sua fase dita  "roqueira", felizmente de vida curta (abril de 95 - junho de 96).
- Apesar da precariedade técnica, as fitas demo tocadas na Fluminense FM chegavam a ter a qualidade criativa superior às faixas regravadas em LPs de grandes gravadoras. Destaque para as demos do Capital Inicial, que não fazia o pop mauricinho que marcou seus LPs, do Lado B, um conjunto paranaense que se radicou em Niterói, do Picassos Falsos, liderado por Humberto Effe e teve o jornalista de O Globo, Luiz Henrique Romanholli, como baixista da segunda formação. Pelo menos estes são alguns dos destaques.
- Uma das mais belas canções tocadas pela Fluminense FM foi "Big New Beginning", de 1986, do conjunto inglês Big Dish, até hoje marginalizado pelas paradas de sucesso, mesmo as "roqueiras". A canção era tocada na programação normal. A Estácio FM fazia a mesma coisa.
Nascida em 82, com sede em Niterói (RJ), a extinta rádio Fluminense FM, também conhecida como Maldita, foi muito popular durante os anos 80. Mas foi uma rádio muito especial. Ela foi uma rádio diferente das outras. Não se ligava em música comercial, nem pop-farofa, mas procurava trazer a tona sons novos, música de verdade. Eram especiais para todos os gostos, entrevistas e inúmeros programas, abrindo espaço para todas as tribos. Muitas bandas fizeram nome lá, com o espaço que ela abria às fitas demo para lá enviadas. Foi o caso, por exemplo, do Paralamas do Sucesso, que estourou nas paradas de sucesso da rádio em 83. Lançou tambem o Kid Abelha e a Legião Urbana. Assassinada pela Jovem Pan em setembro de 94, a chamada frequência maldita passou a tocar dance music. Só. A compra pegou todo mundo de surpresa e deixou milhares de ouvintes órfãos da melhor programação do Rio, restando à estes se contentarem com a robotização e a mesmice das outras rádios.


DECADÊNCIA E FIM DA FLUMINENSE FM
Em 1990 a Fluminense FM parecia ir aos conformes, com sua programação roqueira recauchutada quando, em fevereiro, ocorrem duas baixas. Primeiro, Luiz Antônio Mello foi convidado pelo prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, a presidir a Fundação Niteroiense de Arte (FUNIARTE). Segundo, a Rádio Cidade do Rio de Janeiro adquire os direitos de transmissão do programa "Novas Tendências", tirando da Fluminense sua fonte de novidades.
Num curto período entre setembro de 1989 e fevereiro de 1990 a Fluminense FM teve sua programação revista e alterada por Luiz Antônio Mello. O ecletismo sob o pretexto alternativo, espécie de caricatura da filosofia musical de Maurício Valladares, foi praticamente descartado. Até um bom programa especializado em rock progressivo foi transmitido nas noites de quinta-feira: "Clássicos do Rock". Mas compromissos pessoais, em nome da sobrevivência, fazem muita gente abandonar projetos ambiciosos que não rendem muito dinheiro.
Aí, em março de 1990 a Fluminense, sem algum nome de peso para conduzir a programação rock, mergulha no abismo: decide virar emissora pop, mantendo o mesmo nome, para desespero e irritação de muitos. Para a coordenação, foi chamado Daniel Di Sarto, atualmente gerente de selo da Universal Music no Brasil. Durante um ano a emissora adota esta atitude, tocando Dee-Lite, Paula Abdul, George Michael e Technotronic, entre tantas outras coisas, sendo um ensaio para o que veio depois, com a Jovem Pan e Jovem Rio. A audiência cai e começa o ceticismo dos alternativos quanto ao futuro do radialismo rock no Rio de Janeiro.
Um dos micos registrados dessa época é o fato de um locutor comparar o grupo de menudos New Kids On The Block aos Beatles. Mais ridícula, porém, é a atitude de uma FM de Salvador que entre dezembro de 1989 e agosto de 1993 posou de "rádio rock", com pretensões bem parecidas com a Rádio Cidade carioca hoje. A rádio baiana 96 FM chegava a incluir o New Kids On The Block na programação normal, só parando em março de 1992, quando a 96 FM (conhecida também como Rádio Aratu), adotou uma linha mais "verossímil", a que exatamente se vê nos 102,9 mhz cariocas hoje. A 96 FM não deu certo, perdeu audiência, virou rádio dance e com o tempo virou afiliada da Rede Aleluia (Igreja Universal do Reino de Deus). Te cuida, Rádio Cidade!
Em 1991 a Fluminense volta ao rock, em razão dos protestos dos ouvintes contra a programação pop da emissora. No entanto, a já ex-Maldita estava sem o pique de antes. Seu playlist não era repetitivo no sentido de "martelar" as mesmas 60 músicas toda semana, de quatro em quatro meses, mas era sofrível pela previsibilidade das canções e bandas escolhidas. Os programadores, ao invés de lançarem nomes inéditos no mainstream, se prendiam demais a nomes como Nirvana, Red Hot Chili Peppers e R. E. M., sem falar do farofeiro Guns N'Roses, sucesso entre os adolescentes naquele 1991.


A Fluminense volta meio dependente do playlist da MTV (na época, um pretenso "edifício garagem" para as novas bandas de rock), apesar de ter em sua equipe nomes como Tom Leão (um dos responsáveis pela coluna "Rio Fanzine" de O Globo), que comandava o programa "Hellradio", e Rodrigo Lariú (responsável pela gravadora independente Midsummer Madness e integrante do quadro de assessores e produtores da MTV Brasil), do programa "College Radio", que divulgavam novidades. Até José Roberto Mahr havia voltado à emissora, com o fim do "Novas Tendências" na sua fase Rede Cidade, como citaremos depois. Mas a programação normal, razoável, estava frouxa, pois apesar de não muito repetitiva em relação a qualquer FM de hit parade, era previsível demais para uma rádio alternativa.
Numa comparação mais exata, a Fluminense FM de 1991-1994 parecia mais uma rádio amadora. Não era exatamente uma rádio pop metida a roqueira, apesar de alguns ranços de "Transamérica" no programa "Jack Ruim", de humor besteirol. Era, isso sim, uma cover de uma rádio comunitária da pior espécie, dessas que perdem tempo tocando bandas "radicais" de sucesso e demos de grupos medíocres. Esse amadorismo, do contrário que a inteligente capacidade autodidata das rádios alternativas originais, era burro, equivocado, alienado e acima de tudo desatento ao que ocorria de bom e de melhor no mundo à volta.
Mesmo a volta da locutora Monika Venerabile em 1993 não empolgou. Ela havia trabalhado na Jovem Pan e na Transamérica pouco antes, quando a locutora residiu em São Paulo, e acabou adquirindo aquele ranço "engraçadinho" que ela desenvolveria em 1995. Ainda não era a Monika pedante e grosseira da Rádio Cidade, mas não era mais a Monika da Fluminense dos primórdios. Rola uma suspeita de que ela teria indicado a amigos da Jovem Pan a aquisição da Fluminense FM, por regime de franquia.
Em 1992 é lançado o livro "A Onda Maldita - Como Nasceu a Fluminense FM", de Luiz Antônio Mello. Era um livro saudoso, meio otimista, mas seu autor já estava muito amargurado com sua rádio, então com audiência baixíssima, inferior a 1 % - ironicamente os ouvintes radicalmente roqueiros da Rádio Cidade hoje nem chegam a 0,5 % de sua audiência total e a emissora comemora. Fazer o quê, pretensão é isso mesmo - , e situação econômica sofrível.
Sete anos depois Mello altera bruscamente seu livro, colocando notas adicionais, no livro "A Onda Maldita", que manteve o subtítulo "Como Nasceu" acrescido do "E Quem Assassinou". A obra também foi acrescida de letras traduzidas de King Crimson e Who, um poema de Lobão, um trecho de artigo do autor da revista Som Três (a íntegra pode ser lida aqui, acrescida dos comentários publicados no livro) e, principalmente, um capítulo em que Mello enumera os principais responsáveis pela extinção da Fluminense FM.





Gosto musical é coisa complicada. Não pode ser registrada em carteira de identidade. É difícil de provar e sujeita a mil ecletismos. Mas o cotidiano prova que o mito recente de que ouvinte da Rádio Cidade topa tudo que for rock n'roll não é mais do que balela, conversa para boi dormir. Existe até aquela piada do filho único, ouvinte da Cidade, que se achava roqueiro radical e, quando amigos flagraram um CD de dance music farofa na coleção dele, o tal "filho único" alegou pertencer a irmã caçula dele (ele não tem irmãos nem irmãs). Na mesma piada, o disco do Jethro Tull comprado pelo sujeito seis meses antes permanece com a embalagem lacradinha. Outra piada lembra a famosa marchinha de carnaval dos carecas, só que aplicada ao rock, em que os ouvintes da Cidade acham o rock o máximo, mas na hora do aperto é da dance music que gostam mais.
Em 1992, a Fluminense FM era comandada por um sujeito de pouca repercussão entre a opinião pública, chamado Gilney Hervano, "um homem simples cheio de idéias simples", segundo informa texto da Tribuna da Imprensa. 1991 e 1992 foram anos em que a Fluminense FM parecia mais modesta, palatável, não tinha um décimo da criatividade de antes e sofria alguns deslizes pop, mas era uma emissora correta, realmente eficaz nas suas mínimas virtudes, uma FM rock correta que a 89 FM até hoje tanto quer ser mas não consegue.
Até porque a Fluminense FM de 1991-1992, por mais atrapalhada e "avoada" que fosse, por mais previsível que estava, pelo menos tinha simplicidade, humildade, virtudes que praticamente inexistiram em quase toda a trajetória da 89 FM até hoje. Isso no que se diz a parte da equipe, pois se depender do outro lado, ou seja, Ricardo Chantilly e os envolvidos nos programas mais críticos da emissora, o estrelismo e a molecagem é que imperavam.
A Fluminense FM, no entanto, parecia se preocupar com a "irreverência" da MTV (surgida no Brasil em outubro de 1990) e tentou perseguir seu formato. Na gerência artística de então, estava Chantilly, ex-surfista, que depois veio a ser responsável pelo projeto Australian Connection, que trouxe diversas bandas australianas (algumas delas em fase decadente) para diversas cidades do país, incluindo até o Nordeste.
Hoje Chantilly é empresário do grupo mineiro Jota Quest. Ele, no entanto, não estava vinculado com a história da Fluminense e permitiu que ela seguisse um formato diluído, com locução irregular, amadoresca, com repertório que monopolizava os sucessos e as músicas de trabalho, embora num leque relativamente amplo como da MTV Brasil, que em 1991 era uma espécie de "Edifício Garagem", uma alusão ao termo "bandas de garagem" que eram os xodós da emissora televisiva, que tinha o funk metal e o rock de Seattle como seus carros-chefes.
Em 1993, José Roberto Mahr e Monika Venerabile retornam à equipe da Fluminense. Mahr cria um bom programa, "Overdrive", de rock em geral, antigo ou novo. E Monika, como descrevemos acima, passou a adotar um estilo que pairava entre a sobriedade dos primórdios da Fluminense FM (1982-1985) e a sua fase porralouca da Rádio Cidade (1995-2000).



É certo que, perto do que se tornou a 89 FM hoje em dia, a programação da Fluminense FM na sua fase decadente era mais honesta. Incompetente, mas real, autêntica, mostrando o gosto musical limitado dos surfistas, chegados apenas a curtir parte do rock que se relaciona com praia, verão e que seja mais ligado ao presente. Sem falar dos ecletismos com reggae e hip hop. Por isso é que a programação musical se tornou ruim, cheia de limitações. Mesmo assim, o gosto musical dos surfistas é real, eles curtem o que tocam em rádio, do contrário dos locutores da "rede rock" da 89 FM que só se envolvem com rock profissionalmente, quando na intimidade preferem ouvir pop suave e MPB.
A programação musical da Fluminense pecava pelo monopólio do rock barulhento, acrescida de obviedades do rock australiano. Grupos como Nirvana, Smashing Pumpkins, Red Hot Chili Peppers tinham uma divulgação fora do comum, ainda com ênfase nos seus hits. Junto a eles, Midnight Oil e Men At Work também sucumbiam à divulgação muito maciça, que enjoava os ouvintes. Apesar disso, algumas bandas novas tiveram espaço, ao menos em programas específicos, como Pelvs, Beach Lizards, Second Come e Pin Ups. Até o grupo baiano brincando de deus (esse nome assim mesmo, com minúsculas), liderado pelo professor universitário Messias G. B., apareceu para uma entrevista na Fluminense FM, que em seus últimos momentos chegou a divulgar o grupo O Rappa.
Programas como "Jack Ruim" e "Hard Rock" eram os mais problemáticos. Neste último o apresentador chegou a dizer que não gostava daquilo que tocava. No primeiro, locutores que falavam besteiras e pareciam playboys na praia, falando até palavrão. Em 1995 eles teriam problema em outra rádio, a Costa Verde FM de Itaguaí, que estava abrigando desde o final de 1994 alguns programas da Fluminense quando recebeu uma ordem para suspender a programação roqueira.
Ricardo Chantilly estava planejando aumentar o sinal da Fluminense FM de cinco para vinte e cinco kilowatts quando foi informado do contrato com a Jovem Pan Sat acertado em agosto de 1994. A Fluminense FM teve que trabalhar sua despedida em agosto e setembro, num fim melancólico e apático, com audiência que havia até se recuperado um pouquinho de nada, de abaixo de 1 % para algo como 1, 5 %, porque a notícia do fim assustou muita gente. Mas aí o pessoal foi lutar de forma tardia, mandando abaixo-assinados e recados para o Grupo Fluminense praticamente em vão, e sendo sujeitos ainda a encarar a arrogância da equipe da Jovem Pan Sat, que posava de herói naquela época, se autopromovendo às custas da crise da Fluminense.
Em 30 de setembro de 1994, num trocadilho maldoso com os 94,9 mhz (94 em relação ao ano e 9 em relação ao mês nove, que é setembro), a Fluminense FM encerrava suas transmissões à meia-noite. A música de encerramento escolhida foi "The End", clássico do primeiro LP dos Doors, homônimo à banda, de 1967. O fim da Fluminense foi anunciado em agosto anterior e nos poucos tempos de existência que restavam os locutores, inclusive o próprio Ricardo Chantilly, que apresentava um programa de surfe, ironizavam a entrada da Jovem Pan. Chantilly chegou a dizer: "Êêêê...Praia de paulista é no Rio Tietê". Outros alertavam os ouvintes sobre o fato de que a Jovem Pan costuma tratar o público juvenil como se fosse imbecil.


Com o fim da Fluminense FM, seu grande acervo de discos passava a ser inutilizado pela Jovem Pan, que só usaria CDs de pop e dance, passando o antigo acervo para esperar sua sorte, anos depois, nos sebos de discos no Rio de Janeiro e resto do Brasil. Tais discos se tornaram cobiçados, ante a mítica imagem da extinta rádio, embora os camelôs e lojistas, na sua boa fé, tenham vendido muitos desses discos a preços baixíssimos. Mas isso teve um lado positivo, pois a venda de tais títulos se tornava imediata e entusiasmada pela demanda roqueira, garantindo lucro modesto mas rápido dos vendedores.
No entanto, desconfia-se que o próprio Chantilly tenha sido conivente com a entrada da Jovem Pan, apesar de ter feito comentários irônicos no ar. Recentemente, observa-se de um lado que a programação "definitivamente rock" da Rádio Cidade é comandada por Alexandre Hovoruski, cúmplice de Tutinha na programação dance farofa da Jovem Pan Sat, a mesma que derrubou a Flu FM. Por outro lado, Ricardo Chantilly fez parcerias com a Spotlight Records para lançar os CDs das bandas australianas, e na equipe da Spotlight estava Kaká, primeiro coordenador da Jovem Rio, rádio local que subsituiu e herdou a linha da Jovem Pan Rio. Como se vê, é provável que esse pessoal esteja interessado na destruição da cultura alternativa no Rio de Janeiro, desmoralizando a Fluminense FM.
Que moral tem Alexandre Howoruski para representar o segmento rock, se seu "mestre" Tutinha, pouco antes da Fluminense FM sair do ar, ter dito à reportagem de O Globo que o público de rock é "pequeno"? Além disso, Hovoruski foi responsável por toda a série de CDs das "Sete Melhores da Pan", dedicados à dance farofa, entre 1995 e 2000. Hoje, pode ser que o público "roqueiro" da Cidade seja pequeno (ele não inclui os órfãos da Flu FM, ainda órfãos até a emissora voltar na sintonia 540 khz, em 16.07.2001), e mais detalhes podem ser obtidos clicando aqui.
PRINCIPAIS PROGRAMAS DA ÉPOCA: "Overdrive" (rock em geral), "Contracapa" (rock nacional), "College Radio" (rock independente dos EUA e Reino Unido), "Hellradio" (grunge e rock barulhento da linha pós-punk), "Jack Ruim", "Hard Rock" (rock pesado), "Fluminense News" (entrevistas e demos).